Livro: Clube da Luta

O filme  de David Fincher que conta com o elenco maravilhoso composto por Brad Pitt, Edward Norton e a Helena Bonham Carter foi uma das poucas adaptações para o cinema que chegou bem perto de retratar fielmente o livro que a baseou, mas é no livro que se evidencia o objetivo de Chuck Palahnuik: mostrar de forma bem crua o espírito humano, e nesse caso o que fica exposto é tão ou mais pesado que a violência das lutas.

É um livro que traz muitas sensações e te prende capítulo a capítulo. Narra a história de um homem consumido pela insônia e a apatia derivada da profunda insatisfação com a sua vida. Tudo parece perfeito: ele tem uma boa casa, um bom emprego e aparentemente atingiu o que a sociedade definiria como “sucesso”, mas só consegue amenizar sua insônia e encontrar sentido para sua existência frequentando grupos de apoio a doentes terminais, onde ouvir histórias de pessoas com problemas “reais” acaba sendo a única forma de preencher o vazio que sente. Até que surge Marla Singer, que assim como ele, encontrou nos grupos um alívio para seus próprios problemas, a presença dela acaba por perturbá-lo evidenciando seu interesse romântico por ela.

Ocasionalmente conhece Tyler Durden, uma figura que vive ao seu próprio modo totalmente alheio aos padrões convencionais, que o mostra uma nova forma de viver, juntos eles formam o Clube da Luta, que a príncipio é uma forma de usar atos violentos como válvula de escape, um lugar para que as pessoas expurguem suas insatisfações pessoais, mas com o tempo se torna um projeto que visa mudar todo o padrão de uma sociedade voltada para o consumismo exacerbado e superficialismo.

O escritor escreve de forma subversiva, relatando de forma ácida e divertida eventos nada convencionais. Antes de qualquer coisa é um mergulho profundo na psique e nas indagações do personagem e por consequência nas nossas, um livro sobre viver fora da curva, de uma forma extremista o autor indaga sobre o modo que estamos levando a vida, se estamos buscando o que realmente queremos e somos ou se estamos acomodados numa zona de conforto.

Inferno – Patrícia Melo

Acabei de ler essa semana o livro “Inferno’, da Patrícia Melo. Nome totalmente desconhecido para mim até que um amigo me apresentou como discípula do Rubem Fonseca, como gosto muito dele fiquei curiosa e resolvi pesquisar a seu respeito. Descobri que ela já possui 7 livros publicados e já conquistou alguns premios como romancista.

Inferno conta a história de Reizinho, que muito cedo se envolveu com drogas e o tráfico. Narra de forma irretocável a saga desse menino que queria ser líder do morro em que morava. Um personagem que te causa uma certa empatia apesar das atrocidades que comete ao longo da vida.

É um livro tenso, daqueles que você precisa parar para respirar em alguns momentos. Só aí entendi a semelhança com o mestre Zé Rubem, uma leitura sem maquiagem, sem amenidades. Um livro que narra miséria, mortes impiedosas, guerra pelo poder, tráfico de armas e drogas, prostituição, gravidez na adolescência, fanatismo religioso e também o completo ceticismo, mas acima de tudo narra um sonho. O sonho de um menino. Ser grande no morro, ter perto de si o pai que um o abandonou, sentir amor pela progenitora – que dentro daquela realidade miserável acreditava que a única forma de manter seu filho na linha era espancá-lo violentamente-, ser amado verdadeiramente.

Outra característica interessante é o o senso de humor da escritora, que traz um equilíbrio em meio a tanta tensão. É uma leitura rápida, com paragráfos longos e muitas vírgulas separando os diálogos.

É um retrato de um mundo caótico, uma realidade comum, mesmo distante da nossa. A realidade de quem vive a margem da sociedade com subempregos, com um subvida. A realidade de quem vive numa sociedade paralela com suas próprias leis. É um livro que te causa um certo desconforto, que te afeta, que te insere no contexto da história e te traz muita expectativa e reflexões.

É um livro tão rico, que seria impossível defini-lo nessas poucas linhas. Eu aprovei, e espero agora ler outras obras dela.

Definitivamente é uma leitura para quem gosta de explorar outras perspectivas a partir das vivências dos personagens. Um livro pra quem quer sentir, seja através do choque, da emoção, do riso ou do choro.